Saturday, April 05, 2008

Titulo: Não me responsabilizo por esta ***da.
Ele-Não querida, não funciona bem assim...ela não iria olhar para mim da mesma forma.
Ela-Mas tu achaste-lhe piada...eu conheço-te bem.
Ele - Verdade, nota-se, é fodido. Mas isso não significa nada. Se achamos piada a uma mulher ela vai imediatamente supor que nunca nada daria devido ao nosso perfil social. Ela é rica, eu sou pobre, trabalho numa merda de um call-center e ela é arquitecta, parecemos um filme rasca só de pensar nisso e na mente dela é a Andie Mcdowell quando aquele cabelo ainda era aceitável.
Ela - Mas sabes lá se ela se interessa por isso
Ele - Interessa, agora interessa, esta é uma idade que não serve para nada. Ela pensa o que ele faz, como vão ser os miudos, como é o futuro da relação que tem, o facto de que os apresentou aos pais. Ele é, numa palavra, segurança. Eu, pelo meu lado, não represento segurança, EU, para ela, é que sou o gajo que quer dar umas voltas, aquele por quem ela sente que não seria sempre bom, porque diz que já o sabe, porque está conformada com aquilo que tem. É a imagem que projecto, daqui a uns anos, imagino, vou ser um gajo com defeito porque ainda sou solteiro. Depois, é tarde demais e prisão perpétua no enredo de divórcios de terceiros e sobras de emoção dessas relações que vês passar à tua frente, resignado ao próprio facto que não o tiveste, nem tens filhos que te façam acompanhar o mudar dos tempos e evitar que te percas em referências evocativas/do tempo/inspiradoras para o teu caixote cultural, que é teu, e de uns outros tantos que nasceram na tua geração.
Ela - Mas tu és seguro para uma relação, és estável, não sei porque te referes como alguém que não dá segurança numa relação.
Ele - Obrigado, mas dizes isso porque és minha amiga e me conheces. O chato é que é o seguro ela acha. Estabilidade e procriar, autêntica fase égua.
Ela - Fase égua? Mas então tens uma imagem exterior estereotipada que evita que qualquer mulher te conheça porque acha que tendo sobrevivido aos amores juvenis descobriu um suposto segredo da felicidade? Para depois acabar gajo com defeito porque ninguém lhe pegou. Não há salvação então para a felicidade, contudo, há gente feliz que era (iludido?) como tu.
Ele -Não, há um ponto de equilibrio, um momento em que as mulheres simplificam a sua vida, serenam, para lá da fobia de se assegurarem que os seus valores, sejam o feminismo ou o casamento procriador ou o que for que guia cada um, -nós homens somos iguais- perdeu, afinal a sua razão de ser. Nós, ganhamos um estatuto, ainda quem sem o procurar pois somos incapazes de decidir o que seja, (ou,já agora, crescer) em que ainda pode ser que passemos por material que vale a pena visitar a prateleira. Em suma, não havia um único caminho para o sucesso ou insucesso na vida, aceita-se mais facilmente a planeada não ter existido, e há um equilibrio entre a apatia que resulta de aprender com os erros e, por outro lado, ainda acreditar que a nossa vida está por decidir.
Ela - e que idade será essa, já agora?
Ele- Os trinta e poucos...

Monday, September 24, 2007



AVISO


banda sonora: dEUS: Nothing really ends

Após deixar Leiden para trás. Cuja memória ficará é claro e etc,etc,etc... vou dar o capítulo por encerrado fechando as últimas linhas. Estas.
De resto, continua tudo numa interminável onda de páginas desinteressantes em:



Thursday, August 30, 2007


ciao bella Leiden

banda sonora: The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

Adeus aos canais, aos moinhos, à vida ordeira, às bicicletas, às holandesas, a um idioma incompreensível, aos fabulosos cartazes de concertos, aos comboios pontuais e ao mau tempo...

...e um beijo para quem fica!

Itinerário de regresso:

Saída hoje, paragens pelo caminho, chegada a Barcelona amanhã ao final do dia, saída de Barcelona dia dois, chegada a Lisboa na madrugada de dia 3. (dará para ver o concerto de ratatat em Barcelona dia 31? Avariará o nosso carro comprado por 400 euros?)

Ir trabalhar dia 3.

Monday, August 27, 2007




Tot siens Leiden


Banda Sonora: Lambchop, The distance from her to me


A correr de um lado para o outro, em trabalho e encerrando assuntos pessoais, a imagem de Leiden vai criando distância e a fotografia da minha vida em Lisboa torna-se mais clara. Um certo nervoso, típico de momentos de mudança vai crescendo dentro de mim deixando um incómodo semelhante ao da lua cheia que se revela lá fora.

Por mim, Leiden é um capítulo feliz e finalmente terminado, arrependimentos? Não tenho nenhums, vida em Portugal? É o futuro próximo, felizmente ainda com muito por decidir e muitas decisões a tomar, ficaram como uma prenda para mim, uma pessoa diferente passado este ano. Parece-me que o que quero dizer é que me sinto um boomerang, cada vez que é atirado para fora de casa volta, mas ao contrário de um boomerang normal, volto um pouco diferente, e como todos imaginamos, um boomerang diferente voa de maneira diferente quando de novo atirado.

Wednesday, August 22, 2007


A Fauna de Leiden - excerto retirado de um mail "descrítico" (crítica descritiva)


banda sonora: Arto Lindsay - Animal Animale

Leiden é uma cidade que tem uma população total ligeiramente inferior à do Porto (cidade, sem contar com arredores), até são números interessantes. O problema é que Leiden divide-se em duas partes, o centro, típica cidade holandesa com canais, moinhos e casas tortas como é típico deste país e os arredores. Os arredores, às vezes quando faz bom tempo vou andar uns 20 km de bicicleta por eles, são compostos por pequenas casas com 4 bicicletas estacionadas em frente, uma para o pai, outra para a mãe e duas para os filhos, ao lado da pequena vivenda, uma garagem, com o carro do pai, o da mãe e um para os filhos dividirem se ambos tiverem idade para conduzir. Atrás, um pontão sobre um largo canal ou lago onde está o pequeno barco de família. A casa do lado será exactamente igual e todas se repetem interminavelmente sem qualquer piada. O cheiro a estrume é também comum e as vacas e ovelhas preenchem o resto da paisagem bucólica. Goes without saying, não tem qualquer interesse em visitar, por isso eu estou sempre no centro, onde vivo.


O centro é bonitinho, mas desesperantemente aborrecido. Leiden tem uma grande universidade, mas não tem a vida nocturna que tipicamente acompanha uma universidade segundo os nossos padrões sul europeus. Isto porque aquilo que uma universidade dá a uma cidade são os estudantes, que costumam ser motor de uma atitude borguista e prazenteira que anima as ruas (lembro-me de Salamanca e a sua fantástica vida nocturna). Aqui, os estudantes dividem-se em fraternidades, são três as principais fraternidades, a Minerva (ergo, os seus membros são os minervinhas), a Augustinos (ergo, os augustininhos) e a Quintos (ergo, os quintitos). Metade dos prédios são usados como residenciais destes seres, eu vivo em frente de um pejado de augustininhos e eles são seres tão divertidos que posso asssegurar-te, nunca tive vizinhos tão silenciosos como eles. A velha que vivia na casa em frente da dos meus pais, pese os seus setenta anos, cuspia da varanda em noites de calor ouvindo o seu rádio, aqui, os meus augustininhos, estão na cama às 10 da noite. Não fossem eles tão pouco divertidos que continuaria a não os conhecer realmente. Vivem num ambiente de fraternidade fechado, só membros podem ir às festas e estas acabam à meia-noite, eventualmente como resultado do preço da cerveja barato. É uma mistura explosiva, por um lado são nórdicos, logo bebem até cair e por outro lado Holandeses, não podem dizer que não a uma promoção de preços. Cerveja barata assim, só pode ter uma conclusão possível.


Do outro lado da balança aos seres das fraternidades que são fechados e desdenham quem não for membro, existem os locais de Leiden. Ora, os locais são muito diferentes dos minervinhas & Co. Um Minervinha distingue-se facilmente pois num dia de verão como hoje, em que choveu apenas de manhã e fazem 15 graus está vestido com fato-de-banho laranja e camisa Ralph Lauren azul às riscas, tradicional, a qual está por dentro do fato-de-banho. O local de Leiden nunca vestiria assim , local de Leiden parece mais um lenhador pese saber, por experiência, que provavelmente é agricultor e não lenhador. Digamos que em Viseu(não, não, Viseu não, uma aldeia perdida no distrito de Viseu com mais mulas que carros) a massa urbana tem um ar mais citadino que os locais de Leiden. Ao domingo, o local de Leiden veste-se a rigor, assim como o Português de aldeia põe o seu fato ao domingo, no caso do local de Leiden, não é um fato contudo, são umas jeans justas e curtas que revelam a meia branca sobre sapatos pretos quadrados, uma camisa branca, um blaser azul escuro também justo e coçado. Leva uma boina de marinheiro na cabeça por vezes, azul branca e com uma âncora dourada no topo, o que faz a minha delicia tenho de admitir pois fica-lhes ridiculo. Infelizmente a boina não é sempre, e o normal é terem o seu cabelo loiro farto puxado atrás e preso com gel num gorduroso que combina com o resto.


Os locais detestam e ignoram os estudantes. Faz todo o sentido, numa cidade universitária, o local passará toda a sua vida, o estudante passará cinco anos, por isso não tem sentido travar amizade com ele, isso explica o ignorar do estudante. O detestar do estudante passa pelo que o minervinha é, vestido da sua forma ridicula, caminhando em grupos de chacais, na sua forma ridicula de ser e no tom pedante que apresentam.


Por muito estranho que pareça, eu consigo falar mais facilmente com um local do que com um estudante Holandês, a tática é simples e poderá ser útil caso algum dia saibas de alguém que para cá venha. Sento-me num bar local ao balcão, começo a falar com o local ao meu lado e ao fim de dois minutos de receber um tratamento evasivo, menciono que de minervinhas a quintitos, todos sem excepção deviam ser afogados no canal. Funciona sempre, é um sorriso ganho.


Claro que neste ambiente de dois pólos que se odeiam, há vitimas, danos colaterais como em qualquer guerra. Neste caso são os estudantes que não pertencem a fraternidades. Não apenas os estudantes internacionais como me vim a aperceber com horror. Uma das pessoas com quem melhor me dei por aqui na categoria de "Locais>Holandeses", uma rapariga simpática e relaxada, pese a parca inteligência, girita e ex-modelo (ex-modelo, ELLE e cosmopolitan, ou seja, profissional a sério),confidenciou-me que demorou cerca de ano e meio a ter amigos em Leiden. Este exemplo serve-me os propósitos de demonstrar a demência de Leiden. Imagina uma modelo da ELLE Portuguesa em Portugal, a chegar a uma universidade como estudante e demorar um ano e meio a ter amigos.

Tuesday, August 21, 2007

Kafka on the Shore

banda sonora: Belle & Sebastian - Is it wicked not to care?

Ontem fui jogar uma hora de snooker com o Jason. Ao sair da biblioteca é normal não apetecer ir logo para casa e jogar snooker é provavelmente a única coisa que há para fazer em Leiden. Escolhemos o bar mais perto com uma mesa, uma velha mesa que nem sequer é plana e que, para nosso azar, estava ocupada. Como quem estava a jogar tinha ar de demorar, decidi perguntar se podiamos jogar "doubles", eles aceitaram e, para lá do jogo, foram companhia agradável.


Eram irlandeses, de Belfast.
Bill:"we're irish"
Bolivar: "Dublin?"
Bill: "Belfast"
Bolivar:" oh, so northern Irish"
Bill, com um sorriso cúmplice: "ay, Irish".

Bolivar to himself: "...uppssss!"

Mas não ouve disputa à mesa. Ele era formado em Artes, ela era formada em Jornalismo, tinham respectivamente, 36 anos e 31. Tinham abandonado a Irlanda e as suas profissões pelas mesmas razões que oiço os Portugueses a queixar-se da falta de saída profissional nas mesmas áreas. O jornalismo, dizia-me ela, passa por realizar estágios mal remunerados, quando são remunerados, onde a única coisa que fazia era servir cafés. (que discurso tão familiar para mim e que oiço tantas vezes em Lisboa).

Há dez anos então, vieram para a Holanda. Trabalham como pintores, não dos artísticos, note-se, pintores. Fazem cá três meses de trabalho e depois têm três meses de folga. Vão a casa, ou vão a outro lado qualquer. Passam assim a vida. "ten years ago, they would pay 600 euro per week, and that was ten years ago". (...Deixa-me a pensar o que ando a fazer da minha vida...Deixa-me a pensar, quão leguminosos aqueles que se queixam em Lisboa ficando, ficando, ficando...).

Falamos de Murakami e trocamos sorrisos cúmplices, falamos da dificuldade em viver das 9 às 5. Acabamos o jogo sem nos preocupar quem ganha, em tom de despedida, Jason oferece uma cópia velha das Calligrammes de Apollinaire em Francês, tem muitos livros e não sabe como os levar de volta a Berlim, seu próximo destino. Dizemos até logo, sabendo que provavelmente nunca mais nos veremos.

Ela, não me lembro bem do nome dela e nunca o saberei, sai radiante com as Calligrammes na mão: "my mother sent me some tea she knows I love, this will go perfectly with it, I miss some decent French poetry".

São pessoas assim, não vadios mas vagueantes, que por terem self-confidence (estou a virar emigrante, desculpem-me), tiram um enorme peso dos ombros. De facto, quem tem prazer em Apollinaire, não precisa de uma televisão.

Filhos da nova economia. Se o objectivo final do Homem é de facto o ócio, eles estão muito mais perto, não interessa o trabalho que fazes, nem a qualificação que levas contigo. Enquanto eles saiam pela porta fora, eu senti que William Henley saía com eles.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

e para mim? Não trouxe Apollinaire para casa, trouxe a recordação que há gente assim, da felicidade em encontrá-los, que em Lisboa também conseguirei falar de Murakami, não posso é desistir de o encontrar mesmo sabendo que pessoas assim, não se podem procurar.

Monday, August 20, 2007



banda sonora: Beirut - Elephant Gun


Disclaimer: not sayin' I'm any better


Recordando o High Fidelity de Nick Hornby, após acordar sem vontade numa manhã fria de verão (que se lixe São Francisco, de longe o mais frio inverno da minha vida é o verão passado na Holanda), todos os meus pensamentos são nublados e carregados de pessimismo, (pois pudera!). O do dia, também não podem ser mais que um par deles por dia se queremos manter uma joie de vivre (sotaque texano na coisa, sff), foi dedicado à minha "brandização", ou ao facto de haver gente paga a peso de ouro que é capaz, num piscar de olhos de me categorizar com milhares de outros carneiros e, pior que tudo, acertar.

P: Brandização? R:Imediatamente saber que tennis é que eu vou querer comprar e que música oiço no meu iPod enquanto os compro, por que filmes me sinto atraido e que livros estão à minha cabeceira. Estou categorizado, estamos todos, o mais genial é também haver uma categoria que alimenta os que recusam essa categorização. Falo do mercado que vende música de letras onde uma voz solitária (preferencialmente de tom Tom Yorke) reclama contra a pequena caixa de pensamento em que todos vivemos, provavelmente até podemos comprar mais barato se levarmos um livro dum sociólogo contestatário norte-americano e um documentário sobre as atrocidades norte-americanas no Iraque.

Temo-lo já preparado, tudo feito para nós, de forma a que através de um processo de participação no sistema possamos sentir que estamos contra ele, é uma forma de confissão industrial, em que compramos informação estrictamente necessária a fundamentar a nossa opinião de guerra ao sistema. A partir daí é só ser-se parvo e acreditar que dizendo-lo estamos a enfrentar algo.

Tudo isto enquanto ouvimos um cd dos Rage Against the Machine, publicado e distribuido pela SONY, vestimos uma T-shirt do Che Guevara, made in USA, viajamos pelo mundo com o guia "American express" parando em locais que eles escolhem por nós, e compramos livros como "How to be an indie kid" com tiragem quase ilimitada e disponível na Amazon.

Parem de comprar, comecem a pensar, deixem de ouvir. Todas as gerações precisam de errar não ouvindo e pensando mal, mas pensando por si.

Friday, August 17, 2007


banda sonora: Marlene Dietrich - Where have all the flowers gone?

Há tanque que nos salve de uma ideia perigosa?

Nós, os da minha geração, nascidos poucos anos após o 25 de Abril, aceitamos a democracia e a liberdade individual como algo garantido.

Ao mesmo tempo, as gerações anteriores recordam-nos que a democracia portuguesa é, na sua forma, precária, falível, mas que é o viver de um sonho, que devemos agradecer todos os dias a liberdade que usufruimos.


Agradecer, vivendo-a, não basta. Agradecer, lutando por ela e vivendo conscientes dela todo o tempo como algo fungível e perecível, é uma obrigação igual ou superior a votar. La lucha de masas y ideas a quien queren quitar el sueño, nas palavras de Fidel (que fez anos dia 13, by the way).


Aqui, na Holanda, num ambiente de estrangeiros exilados como o meu, há Americanos, Ingleses, Escoceses e Holandeses (eles próprios desterrados no seu país como cada vez mais os sinto) os quais tomam a Democracia e a Liberdade como algo garantido. A usurpação de poderes por um líder político é algo que nem lhes passa pela cabeça, o ataque à democracia na sua imaginação passa por tanques militares na rua e lutas armadas entre "bons" e "maus", um terror vermelho, ou fascista que totalitariza o poder em pleno dia.


Não deixa de ter piada, como quem vive hoje as marcas de ter tido tanques na rua num passado recente da sua história sabe que essa usurpação de poderes pode aparecer de forma mais branda e perigosa. Que o tanque normalmente surge como libertador de uma ideia que nos prende. É igualmente engraçado, como eles que não viveram tanques na rua, acham que tanques são necessários para fazer uma revolução que derrube a democracia. São as ideias, não os tanques, que são perigosos. Contudo, sem ideias nem tanques, as suas democracias são fortíssimas.

Monday, August 13, 2007


Fast Forward Dance Parade

banda sonora: LCD Soundsystem - Too much love

No Sábado passado foi a "Fast Forward Dance Parade" em Roterdão. Festa é sinónimo de festa. Como sempre, à boa maneira Holandesa, nunca vi tanta cerveja consumida em tão curto espaço de tempo e de forma tão organizada.

O que nunca deixará de me surpreender, é a forma de organização holandesa. Uma parada é sinónimo de camiões TIR em desfile com pessoas a dançar no cimo deles. Até aí nada de especial. A forma como se desenrola é que continua a ser diametralmente oposta ao que nós podemos imaginar numa cidade como Lisboa no centro da nossa lusitana (des)organização.

O desfile começa a horas. A festa desenrola-se nas ruas e é motivo de festa suficiente não estar a chover. Os membros de cada camião, dançando, variam de idades entre os 15 e os 50, mas há uma clara ausência de pessoas entre os 20 e os 45 o que dá um aspecto deprimente a toda a parada. Dançam com pouca vontade.

Em certos cruzamentos da cidade há música e pessoas dançam, mas tudo em ambientes devidamente limitados e controlados. Ninguém se mexe muito de qualquer forma. Nalguns sítios vêem-se roulottes com o texto: "patat", onde se podem comprar batatas fritas. (Consta que as verdadeiramente boas são as fritas em gordura de cavalo).

No fundo, tudo está planeado e organizado. Tudo decorre no horário previsto e com um sentimento de obrigação. Bebe-se porque tem de se beber, dança-se porque se tem de dançar. No fundo, sente-se que as milhares de pessoas à nossa volta tinham o dia marcado na agenda para fazer aquilo, e fizeram-no, exactamente como planeado.

Saturday, August 04, 2007

Calor
banda sonora: Badly Drawn Boy - Silent Sigh
Faz calor. Os passeios de bicicleta sob o sol sabem bem. Esta terra é uma seca, mas tudo fica tão melhor quando faz calor. Finalmente sol

Sunday, July 29, 2007




O trato humano

banda sonora: Radiohead - Subterranean Homesick Alien

Eva esteve doente, a primeira mulher, aquela que se encontra em todas. Senta-se com Bolivar e a conversa correu, mais ou menos, assim.

E: Já estou melhor agora, obrigado por teres ligado
B: De nada, sei como é chato estar doente.
E: Estavas a falar a sério quando disseste que se precisasse de alguma coisa era só pedir?
B: Sim, claro, estavas doente e eu sei como é chato estar doente, como todas as tarefas diárias pesam...
E: Desculpa não ter respondido
B. Não faz mal, estavas doente, é normal
E: Mas podia ter dito algo na altura...
B: Disseste agora. É indiferente
E: é indiferente como?
B: Da mesma maneira que é natural oferecer ajuda quando alguém está doente, é normal a pessoa doente só quer ser deixada em paz e mandar-nos dar uma volta.
E: Então só ofereces ajuda para essa pessoa te mandar dar uma volta.
B: Não, se por acaso precisasses de ajuda e me pedisses algo, estaria lá para ti.
E: mesmo se tivesse pedido depois de te mandar dar uma volta?
B: Sim, estaria lá, como te disse, é normal. O curso natural das coisas é estar lá para ti porque tu estás doente, tu responderes torto porque estás doente, eu não me importar porque sei que estás doente, e esta conversa era provável acontecer e eu dizer-te que não faz mal nenhum porque na verdade, não faz mesmo.
E: Então é uma espécie de complicada relação, e se eu nunca tivesse pedido desculpa como pedi agora, ficarias chateado?
B: Não, na verdade não ficava, o que disseste na altura não importa agora que estás bem.
E: Então nada importa na verdade, podia fazer e dizer o que quisesse. Nada importa, e o facto de não te preocupares com isso faz-me pensar se realmente te importava o facto de eu estar doente, essa actitude latina de estar presente é, portanto, algo falsa.
B: Estavas doente, agora estás bem, isso importa-me. Perdoar tudo o resto é saber que és humana e que estavas doente, fragilizada, é conviver com a condição humana.
E: Quando estive no hospital, nenhum dos meus amigos me visitou, mas eu sei que ficaram alegres de me ver saudável.
B: A tua doença e as diferentes reacções, as minhas Portuguesas, as dos teus amigos holandeses, são espelhos da nossa diferente forma de viver a humanidade. Deixemos a coisa por aí.



O amigo da Morte


banda sonora: Velvet Underground - The black angel's death song

Na republicação da colecção de literatura fantástica, o volume dois contêm um conto chamado "O amigo da Morte". A organização da colecção foi feita por Borges e, mais um vez, sinto-me agradecido a Borges por momento tão original e de leitura tão agradável. O conto encerra, para mim, uma maravilhosa originalidade, além de conter elementos que rapidamente se compreende terem sido de interesse para Borges, (os quais não revelo pois surgem no fim do conto), houve um pormenor que me fascinou, o herói da história faz um pacto com a morte, a qual se diz sua amiga.

De imediato pensei que o pacto correria mal para ele, escrito numa época de valores católicos fortemente presentes em Espanha, sente-se um clássico momento de Fausto no momento, como se Schlehmihl tivesse acabado de vender a sua sombra à figura demoníaca que o persegue, a imagem está lá, em total semelhança, um herói desesperado, sem finalidade, de alma perdida, tocado no ombro pela morte que lhe fala carinhosamente e um pacto duvidoso assinado. Mas, e o que me pareceu maravilhoso no conto em questão, a morte cumpre o seu pacto e, ainda mais, a venda da sua sorte à morte não só não leva o herói ao engano e perdição mas, pelo contrário, salva-o da perdição do dia do juízo final.

Esta publicação, na mesma altura em que é publicada a "intermitência da morte" de Saramago, foram um óptimo acto de public relationships por parte da morte.

Pelos vistos a nossa condição humana e os dados do destino são negociáveis, temos de ter cuidado é com a contraparte que escolhemos.


L'âme

banda sonora: David Bowie - Soul love

est le principe vital de toute entité douée de vie. Por vezes, a vida parece simples, o princípio é o fim, o Alpha e Omega da vida, não cristo, não deus, não viver o dia, ter, manter, respeitar e amar a nossa própria alma é um simples segredo da vida. Viver numa sociedade rica, consumista como a Holandesa, este confronto presente todos os dias com uma mentalidade diferente, ajuda-nos sempre a situar-nos no planeta e no mundo. A reflectir sobre o que somos e preparar o nosso próprio "manifesto da alma".


Comprar roupas, relógios, máquinas que tanto fazem por nós é exactamente igual a comprar experiências, passeios de rafting, fins de semana românticos. É consumir, experiências ou objectos, consumir é comprar e guardar, em recordações ou na estante, tudo sem uma clara finalidade que não seja melhorar o conforto da nossa vida, valorizar o nosso tempo de ócio.


No holanda, o CV de vida é impressionante, têm o emprego e umas 14 actividades extra, 4 instrumentos que sabem tocar, 4 desportos que aprenderam a praticar, mais não sei quantas regras de vida, tudo para impressionar, mas não impressionada nada, tal como os amigos, categoria na qual me orgulho dizer que tenho poucos e que desconfio de quem diz ter muitos, (pois há amigos e amigos...), hábitos e passatempos também nos definem, não importa ter muitos, não importa fazer muito, importa que tudo o que se faça nos tenha como objectivo final e não a imagem que transmitimos a outros (e nem sequer a imagem que transmitimos a nós mesmos).


O destino da vida de uns será certamente, mais digno de cartaz publicitário que o destino de vida de outros. Mas a felicidade pode espreitar a conduzir um taxi no Sri-Lanka ou a viver numa pent-house em Manhattan, quem falha, é quem não perde tempo a descobrir-se, a enriquecer a sua alma, e ela é uma "gaija" complicada. Pede das coisas mais estranhas e diz-nos para abandonar as coisas mais bonitas, mas há alguém por quem valha mais a pena fazer sacrificios? O que me parece é que não basta viver não fazendo aquilo que a nossa alma nos impede de fazer, temos de a procurar, perder tempo percebendo quem ela é e o que ela quer, só assim poderemos ser honestos com ela.


Os meus próximos dois posts serão dedicados à alma.

Wednesday, July 11, 2007



Festa na Aldeia


banda sonora: Beirut - Elephant gun


Complicado sair hoje de casa, quero comprar um pacote de leite, mas há festa na aldeia. As festas locais em Leiden lembram-me invariavelmente as festas da aldeia dos meus avós. Na loja de conveniencia, aquela que não fechou mais cedo por ser dia de festa e que, naturalmente, pertence não a um Holandês mas a um Árabe, o negócio corre bem, fazem fila as pessoas, lá me coloca civicamente no meu lugar. À minha frente, dois excelentes especimens da geração McDonald's. White trash que, na holanda é tudo menos white. baggy trousers, correntes fatelas, cortes de cabelo radicais e emanam o seu "não ter nada que fazer". O futuro para eles, é risonho, claro que é, estamos na Holanda, é difícil estragar tudo num país como este, mas é violento, a violência urbana é uma forma de comunicação para eles, acelerar nas scooters serve apenas para esconder as enormes horas de ócio, e lá vão eles, todos felizes, não têm mais que catorze anos e demoraram algum tempo a decidir qual a caixa de preservativos a comprar. Aceleram agora nas scooters, hoje, em Leiden, há festa na aldeia.


enfermidades


banda sonora: Stereo Total - Relax Baby be cool


Detesto estar doente, ainda para mais com uma pequena constipação, nem um pouco de febre para legitimizar o queixume. Aqui a pensar, enquanto faço um chá com três camisolas vestidas que, se morrer, notarão pelo fedor e apenas então me descobrem. Que curiosamente olharão para o meu frigorifico a tentar descobrir algo sobre a pessoa que fui.

Se calhar ainda teria salvação, não da morte, essa é em si uma salvação, mas de uma doença. Internado num hospital e a cara do médico para as enfermeiras: "deviamos por um pouco de música para o ajudar, faria bem, mas que raio de música é que este gostaria de ouvir?" a resposta ninguém sabe, nem aqui nem em Lisboa nem em qualquer pedaço deste planeta.

Que livros me seriam lidos à cabeceira da cama?

Que se lixe tudo isso, "happy thoughts, happy thoughts", ajudam a melhorar de certeza, há que ter happy thoughts

Friday, July 06, 2007


John McTiernan


banda sonora: Rolling Stones - Paint it Black


Ok, ok, ando na rua e olho para os cartazes de cinema. Melhor, decido esperar por ir a Lisboa, valerá a pena. Porquê o nervosismo? Bom, anda por aí o Die Hard 4.

Será bom? Será péssimo? Será o que melhor se consegue fazer dentro do orçamento que não vá defraudar totalmente as expectativas? Já lá vão uns 20 anos desde o primeiro Die Hard e desafio alguém a dizer-me que prefere um Stallone vitima de culturismo desenfreado a um Bruce Willis que na minha infância sempre cheirara a "modelo e detective" e que se farta de "levar uma tareia" sabendo à partida que ninguém lhe pagará horas extraordinárias?


O meu problema, além da enorme expectativa (ainda que tenha aprendido a viver com este tipo de desilusões em regressos aos ecrãns de outros heróis), é o John Mctiernan. Não consigo deixar de me sentar de lado na cadeira de cinema com um pouco de medo do que ele vai fazer. Certo, fez o Die Hard 1 e tentou resgatar no 3 depois do desastroso Die Hard 2. O remake do Thomas Crown Affair também não estava mau de todo, (ou era a Rene Russo que estava fantástica? pode ser, já não me lembro bem), o Predador e o maravilhoso "caça ao outubro Vermelho" onde aparece o melhor Jack Ryan para mim e não graças ao Alec Baldwin. Por tudo isto, devia confiar cegamente no homem, mas não posso esquecer que também fez o Basic o Nomads, o 13º guerreiro e o remake do Rollerball (ainda que não tenha caído na esparrela de ver este, endeuso em demasia o original).


Enfim, eu nem sei porque falo disto, porque estou farto de saber que este dilema na minha mente não é um dilema, vou comprar um bilhete, vou-me sentar e esperar pelo melhor... Yipee-kayey, Mctiernan

Wednesday, July 04, 2007



banda sonora: Suede (The London) - Trash (going through the old stuff closet, I know, but some songs will remain forever) Disponível na playlist do lado direito, blá,blá,blá...e em muitas memórias.

Almocei com a Galina hoje, sim, na holanda há pessoas chamadas galina e moinhos e canais e papoilas, e ela dizia que se morresse hoje não temia nada do que descobrissem em sua casa, que não sentia que tivesse segredos mas que vivia surpreendida com a ideia de que muita gente os terá.
Jamais direi que essas pessoas não existem, mas não acho que sejam assim tantas. Ou se calhar não me interessam tanto, não são os heróis dos meus romances nunca escritos.

Em que ponto está a humanidade na sua busca de heróis? O quotidiano dá-nos milhares de exemplos todos os dias de verdadeiros heróis, a arte já os encontrou há algum tempo, abandonado o vencedor à imagem de um deus grego (que não Apolo, esse continua invariavelmente ligado à homosexualidade, na literatura especialmente). O cinema dá-nos psicopáticos assassinos com cajas pintadas a graffiti e acho que por vezes sentimos que vivemos nesse mundo. Não o meu herói, aquele que vive com naturalidade um vida de T2 com alguma, às vezes bastante, solidão. Um herói que desenrasca uma omolete e um bife, tem mulher-a-dias para fazer umas limpezas e que por vezes faz sopa, que usa mais vezes o micro-ondas e se senta com o prato aquecido na cozinha, esse Homem, esse grande Homem representado em milhares de homens e mulheres no mundo. Ergue-te, pois para mim e certamente muitos outros, és um herói. Invencível apenas nos números.

Blogar


banda sonora: Clap your Hands Say Yeah! - Is this love?

Há um prazer em blogar, um sentimento de publicação. Falar sozinho sem se sentir que se está a ficar maluco, sentimentos de felicidade que não se atrevem a partilhar (o primeiro que nunca tenha acordado com uma enorme vontade de gritar algo a todo o mundo que o faz feliz mas que prefere não possa partilhar que levante a mão).




Não sei bem onde isto vai, raramente sei onde os meus posts vão terminar quando os começo para ser honesto, o que em parte justifica a má qualidade de tantos, mas o que há a descrever, é um diário publicado, é a privacidade do nosso computador quando escrevemos juntamente com a dignificação da livre acessibilidade ao seu conteúdo por quem estiver interessado. Sentir que alguém pode estar interessado deverá chegar, e para mim chega.




Por outro lado tenho de admitir que a fusão da realidade com a virtualidade me preocupa um pouco. Não a fusão, mas a falta de sensatez dos dois extremos, das mais vulneráveis das pessoas às praticamente invulneráveis empresas no que respeita ao social. Dos tempos menos bonitos ideologicamente que actualmente se vivem aos escapes de second life. Ainda não me decidi se uma felicidade virtual, quando credível, pode substituir uma infelicidade real. Equiparar os dois conceitos, de real e virtual, é assumir que uma infelicidade virtual pode conduzir a uma absurda infelicidade real, não posso concordar com a validade da proposição, ou como uma consequência assumida socialmente.

Saturday, June 30, 2007


Pato Bravo

banda sonora - Ratatat - Seventeen Years

A Polícia Judiciaria fez uma operação que visou apurar milhões de euros em fuga fiscal por parte de empresas de construção civil. Mas no meio disto tudo, há algo preocupante. A operação, segundo a PJ, chamou-se "Operação Pato Bravo", o que, como é conhecimento geral, é uma expressão de calão, de tom negativo, utilizada precisamente para a classe dos construtores civis.


Este gosto (ou falta dele) na escolha das operações devia claramente ser pensado. Numa sociedade de informação como a nossa, onde nos arriscamos tanto a um sentimento punitivo geral e onde a condenação não é feita por tribunais que demoram anos a decidir, mas por jornalistas que julgam tudo poder e saber (dos quatro poderes há algum que, actualmente, funcione tão rapidamente como o quarto poder em emitir irresponsáveis juízos de culpabilidade) onde uma mera acusação é quase uma sentença de culpabilidade a nossa querida Polícia parece não resistir a colocar algum escárnio julgador na sua actuação.


É pena, pois os construtores civis continuarão a ser vistos da mesma maneira pela sociedade (que também não os vê muito bem de qualquer maneira), quem perde com este tipo de decisões é a própria PJ, a qual se revela vulnerável ao ressentimento, ao insulto, ao mau gosto. Como pode uma polícia assim ser levada em conta como parte da soberania nacional? Quem quer ser respeitado tem de fazer o mínimo para o merecer.


Parece que se aplica a velha máxima, da Teresa que andava na escola primária comigo que me apontava o dedo e dizia "...quem chama é quem é, quem chama é quem é..."

Sunday, June 24, 2007

Master of my faith, Captain of my Soul

Banda sonora: The Clash - Career Opportunities

B. acorda de manhã, uma nova era começa. Olhando para o relógio sabe que tem tempo suficiente. Mais do que suficiente conclui, enquanto toma o pequeno-almoço fixado no texto do pacote de cereais que ele sabe de cor, mas de manhã ajuda a não pensar. Entretem-se a fazer contas matemáticas. Barbear e Banho x minutos, vestir y minutos. O tempo é mais do que suficiente, conclui.

Escolhe o fato, não pode ser qualquer fato, hoje é um dia especial, é o seu primeiro dia no novo emprego. Procura um relógio, o melhor. Deixado pelo avô quando morreu, tem saudades do avô no qual pensa sempre que usa o relógio, mas usa o relógio sem qualquer sentimento de culpa ou remorso. Um avô não é um pai, aceita-se melhor. Procura a gravata, a tal gravata, aquela que não poderá sujar ao almoço, nada de sopas ou ensopados, foi cara esta mas fica muito bem com aquela camisa. Onde está a camisa? Oh não, será que a usou? Não, estava um pouco mais à esquerda no armário do sítio onde a costuma deixar. Veste-se, hoje, de um forma algo ritualizada, como se fosse a sua armadura em vespera de batalha. Há que causar boa impressão ao novo chefe. Os adereços entram no fim, o relógio a caneta a carteira, olha ao espelho e procura um sorriso confiante. Não há, isso é só nos filmes. Sai de casa depois de localizar as chaves de casa e do carro, estão no sítio do costume. Quando chega cá fora lembra-se, hoje é o seu primeiro dia da sua vida em que é desempregado.